terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Cativar

(...)
– Anda brincar comigo – pediu-lhe o principezinho. - Estou triste...
– Não posso ir brincar contigo – disse a raposa. – Ainda ninguém me cativou...
(...)
– «Cativar» quer dizer o quê? – Perguntou o principezinho?
– É a única coisa que toda a gente se esqueceu – disse a raposa. - Quer dizer criar laços…
– «Criar laços»?

- Sim, laços – disse a raposa. – (…) se tu me cativares, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E eu também passo a ser única no mundo para ti…
(…)
- E tenho de fazer o quê? - Perguntou o principezinho.
- Tens de ter muita paciência – respondeu a raposa. - Primeiro, sentas-te longe de mim…assim…na relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não me dizes nada. As palavras são uma fonte de mal-entendidos. Mas podes sentar-te cada dia um bocadinho mais perto...

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Harmonia

Midsummer Night's Dream, CNB
Momentos há em que beleza e perfeição acontecem inesperadamente.

Momentos há em que beleza e perfeição acontecem naturalmente.

Tal
como
quando
Ana Lacerda
dança.

A cidade como espaço do vazio

«Criaturas, seguindo Ruy Belo

Reunidos em torno da revista Criatura, Diogo Vaz Pinto, Hugo Roque e Pedro Jordão são, em maior ou menor grau, extremamente atentos à possibilidade de sentido que o literal pode fazer deflagrar no poema. Cenários urbanos, cafés, bares, discotecas, mas também a Bíblia, Deus, paisagens industriais, uma total (propositada?) ausência da rima, mas uma curiosa impressão rítmica fazem destes três poetas vozes muito originais que, esperemos, não se tornem epígonos de uma qualquer tendência meramente literal.
[…]
Já em Hugo Roque qualquer coisa de Cesário parece reencontrar-se connosco. Baudelaire e Hart Crane são leituras que se pressentem. Também Roque nos vem falar do dióxido de carbono social, da cidade como espaço do vazio, do quotidiano mais ignóbil porque exausto. Neste poeta, em cujos poemas há a tentação da quadra, ou do poema vertical, atomizado, à Carlos de Oliveira, igualmente se indicia a ironia deceptiva à O'Neill: «Estou demasiado cansado/ agora que dormi horas a mais/ estou com tempo/ ia bem um lanche ao final da tarde/ à noite uma peça de teatro/ que já faz tanto tempo [...]». Todavia, Hugo Roque (n. 1978) é, parece-nos, um trabalhador do verso, um cinzelador não de palavras, mas das sensações: uma extenuação, um abatimento, a recordação do tempo, a certeza de estarmos em tempos do fim farão de Hugo Roque um autor a seguir com toda a atenção.
[…]
Estes rios vão desaguar onde? Lirismo, ou haverá outro caminho?»

António Carlos Cortez, in Jornal de Letras n.º 1001

Espelho em negativo

Ontem, motivado por uma vontade (e talvez necessidade) de evasão (…), fui à estante e retirei "As Cidades Invisíveis" do Calvino. Para quem ainda não o leu, aconselho que o faça.

O livro assemelha-se a um conjunto de 55 mini-contos (1-2 páginas) que pretendem, cada um deles, descrever cidades (ideais, oníricas, fantásticas, surreais, perdidas, fascinantes, impossíveis, invisíveis). São relatos feitos por Marco Polo a Kublai Kan (rei dos mongóis) acerca das suas viagens.

No fim de cada descrição, fica a vontade de as conhecer melhor, de passear por elas, de as fotografar, de nos sentarmos numa qualquer esplanada ao fim da tarde… ou então, para que a magia não se acabe, de as olhar apenas de relance para que se não desmoronem…

Aqui fica um excerto:

- Viajas para reviver o teu passado? - era agora a pergunta do Kan, que também podia ser formulada assim:
- Viajas para achar o teu futuro?
E a resposta de Marco Polo:
- O Algures é um espelho em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu, descobrindo o muito que não teve nem terá.


PS: se alguém descobrir a localização de uma delas, por favor diga-me. Já tenho a mochila pronta, com um bloco de notas e um exemplar de “As cidades invisíveis”.

Obra redonda

Prestes a publicar mais um livro (Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?), em entrevista ao DN:

"... Mais dois anos e calo-me. Calo-me de vez, já chega. Só queria deixar a obra redonda."

"… Vou publicar este livro que acabei agora e escrever um último livro para arredondar a obra. Essa é a minha ideia. Depois, nessa altura, quando sair esse livro que arredonda, que eu penso que me levará dois anos de trabalho - se conseguisse começá-lo este ano -, acabam os romances, acabam as crónicas, acaba tudo e não publico mais nada. A minha voz falada ou escrita já não se ouvirá mais."
Esperemos que não seja verdade, e que a obra não pare. Afinal de contas, qual a importância de a obra ficar redonda?

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Vice-Royale. Vain-Royale. Vile-Royale.


Vice-Royale Vain-Royale Vile-Royale é um tríptico. Uma performance que convoca as linguagens conceptuais e emocionais da dança, do cinema, da música e da poesia.

Nova criação da coreógrafa Sónia Baptista, Vice-Royale. Vain-Royale. Vile-Royale, a ver hoje e amanhã na Culturgest. A canção foi o mote para a criação da primeira personagem da peça - interpretada por Sónia Baptista e Rogério Nuno Costa - que junta três figuras femininas. São três mulheres bizarras, que vêm de uma espécie de universos paralelos e de um tempo que não é linear.
O palco está vazio, apenas com um microfone. A tela de projecção de vídeo funciona como um grande objecto de cena. A partir daí as personagens, no palco e na imagem, revelam ao público os seus imaginários. São apresentados três filmes (Rui Ribeiro) mudos e ilustrativos da vivência das três mulheres, fazendo uso de múltiplos objectos.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Luz

Morro quando se apagam as luzes e só ressuscito pensando que amanhã voltarei a dançar
Rudolf Nureyev (1938-1993)
Aos 17 anos entrou para o Ballet Kirov (Leninegrado), terminando o curso em 1958. Tornou-se então coreógrafo e dançarino da companhia do Kirov. Actuando com a companhia em Paris, em 1961, conseguiu iludir a segurança soviética e pedir asilo à França. A partir daí, percorreu vários países ocidentais, juntando-se ao elenco do Royal Ballet de Londres como artista convidado. O seu par preferido era Margot Fonteyn, com quem interpretou várias peças. Naturalizou-se austríaco em 1982. Entre 1983 e 1989 foi director de dança da Ópera de Paris.

Darwin (1809-2009)

A Fundação Calouste Gulbenkian vai assinalar os 200 anos do nascimento de Charles Darwin e, simultaneamente, a passagem de 150 anos sobre a publicação da obra A Origem das Espécies com uma exposição intitulada A Evolução de Darwin, a realizar entre 12 de Fevereiro e 24 de Maio de 2009.
A ver!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Aquando da chegada. Momento único e mágico.

...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Mar de solidão

«(…)
- O barulho do mar e do vento. A montanha, a ideia da montanha impraticável. E depois a terra arenosa por ali fora. E a solidão. E sentir sobretudo que já não pode haver medo. Fecho as portas da casa, a porta de saída e as portas dos quartos entre si. E fico no quarto sem soalho e deito-me no chão. Ouço o mar e o vento à frente e atrás da montanha solitária e poderosa. Depois encosto a cara à terra profundíssima para escutar o seu húmido sussurro atravessando-a toda e passando por mim. E então poderei morrer.»

Herberto Helder, Os Passos em Volta (excerto), Ed. Assírio & Alvim

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Da actividade de ler

Se ainda havia dúvidas, as mesmas desvaneceram-se de vez!

Um estudo da Washington University revela que a leitura não é uma tarefa passiva. Durante o acto da leitura, o cérebro imita as situações encontradas na narrativa. Cria simulações mentais de cada som, cenário, sabor ou movimento descritos que utilizam as mesmas regiões cerebrais que uma pessoa utilizaria quando faz, imagina ou observa situações semelhantes no mundo real.

O estudo será publicado na revista cientifica Psychological Science brevemente.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

As horas, sempre as horas...

Compositor americano. Faz música minimalista. E bem.

Tem produzido inúmeros trabalhos, entre óperas, sinfonias, concertos e bandas sonoras, além da colaboração com outros músicos. Nas bandas sonoras, destaque para “As Horas”.

Quem tem medo arranja ... um gato

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

AMJAD pela La La La Human Steps

AMJAD do coreógrafo Édouard Lock. Para ver hoje à noite no CCB.

“Mesmo aqueles que não se sintam familiarizados com estas peças, recordarão de imediato os seus temas”, diz Lock. Inspirando-se em referências comuns a todos os bailados, como o Lago dos Cines ou A Bela Adormecida, o coreógrafo fundador e director da companhia canadiana La La La Human Steps desconstrói algumas passagens destes bailados numa nova linguagem que conjuga tradição e contemporaneidade.

Companhia de coreografias ecléticas, questiona em Amjad a memória cultural colectiva. A acompanhar Édouard Lock, está o compositor David Lang que, com o seu trabalho de reorquestração dos clássicos, nos surpreenderá ao confrontar as melodias do passado com os ritmos acelerados dos nossos dias.
Obrigado André!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Caos calmo

Após a morte inesperada da mulher, Lara, Pietro é acometido de uma estranha mistura de caos e calma. Pietro não estava em casa quando Lara morreu. Estava na praia, com o irmão, a salvar uma desconhecida de morrer afogada. Claudia, a filha, estuda no 5.º ano e Pietro resolve esperar por ela no carro depois de a levar à escola no primeiro dia de aulas após a morte da mãe. Continua a fazer o mesmo nos dias que se seguem. Sentado num banco de jardim, à espera que a dor se abata sobre si, a tentar perceber como pode proteger Claudia. Amigos, colegas e familiares aparecem para confortá-lo, mas acabam a falar das suas próprias dores e problemas. E, sentado naquele banco, a observar o que o rodeia, Pietro sente a sua vida e as suas prioridades a mudarem.
Realizado por Antonello Grimaldi, Caos Calmo é protagonizado pelo actor e realizador Nanni Moretti, que colaborou também na adaptação do argumento, escrito a partir do premiado romance de Sandro Veronesi.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Simplicidade

I
Quando se pergunta porque é que determinado quadro de Picasso está a verde, às vezes é por que o encarnado se tinha acabado. Não vale a pena ir mais longe.
II
O que eu queria era pôr a vida toda entre as capas de um livro.

Angústia do homem no tempo

Excerto de uma entrevista aquando da apresentação de Que farei quando tudo arde? em Nova Iorque.

-Qual a inspiração para Que fazer quando tudo arde?
-Não gosto desta palavra. Isso não existe.
-O que há de errado com a palavra inspiração?
-Parece uma iluminação, uma coisa divina não gosto.
-Certo. Como surgiu então a história que está contada neste livro?
-Não conto histórias, eu escrevo.
-Mas a história não tem origem?
-Não sou naturalista, já há muita gente a fazer isso, não conto histórias. Escrevo sobre a angústia do homem no tempo.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

A ler

Aqui ficam mais 3 novidades editoriais para 2009 (pela minha ordem de preferência...):

1) "Patagónia Revisitada" de Bruce Chatwin e Paul Theroux (Quetzal). Já agora, para quem ainda não leu “Na Patagónia” do mesmo autor, aconselho vivamente. Muito mais que um livro de viagens.

2) “Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?" de António Lobo Antunes (Dom Quixote)

3) "Contos dispersos" de Flannery O'Connor (Cavalo de Ferro)

My Arms Around Paris

O primeiro single do novo álbum do Morrissey (Years of Refusal - ver o meu post de 31 de Dezembro) chama-se I'm Throwing My Arms Around Paris e tem letra do próprio :-)).

Sai dia 9 de Fevereiro. Enquanto que na capa de Years of Refusal, Morrissey aparece com um bebé nos braços, na capa do primeiro single, Morrissey e os membros da banda aparecem nus. De acordo com o Ipsilon, “com provas de ginásio num corpo que durante a década de 80 era, todo ele, fragilidade e androginia”.

A avaliar pela letra do single, será vasta a dimensão poética do álbum. Ora vejam.

I'm Throwing My Arms Around Paris

In the absence of your love
And in the absence of human touch
I have decided
I’m throwing my arms around, around Paris
Because only stone and steel accept my love.

In the absence of your smiling face
I traveled all over the place
And I have decided
I’m throwing my arms around, around Paris
Because only stone and steel accept my love
I’m throwing my arms around, around Paris
Because only stone and steel accept my love.

I’m throwing my arms around Paris
Because nobody wants my love
Nobody wants my love
Nobody needs my love
Nobody wants my love

Yes, you made yourself plain
Yes, you made yourself very plain

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Fio dos dias


«E assim prosseguimos com as nossas vidas, cada um para o seu lado. Por mais profunda e fatal que seja a perda, por mais importante que seja aquilo que a vida nos roubou - arrebatando-o das nossas mãos -, e ainda que nos tenhamos convertido em pessoas completamente diferentes, conservando apenas a mesma fina camada exterior de pele, apesar de tudo isso continuamos a viver as nossas vidas, assim, em silêncio, estendendo as mãos para chegar ao fio dos dias que nos coube em sorte, para logo o deixarmos irremediavelmente para trás. Repetindo muitas vezes, de forma particularmente hábil, o trabalho de todos os dias, deixando na nossa esteira um sentimento de incomensurável vazio.»

Excerto de Sputnik Meu Amor de Haruki Murakami

Take me out tonight

Ainda no rescaldo da viagem nostálgica à música dos The Smiths e Morrissey (e não só...) da passada 6ª feira no Frágil, aqui fica uma das letras mais mais mais.

There is a light and it never goes out

Take me out tonight
Where there’s music and there’s people
And they’re young and alive
Driving in your car
I never never want to go home
Because I haven’t got one
Anymore
Take me out tonight
Because I want to see people and I
Want to see life
Driving in your car
Oh, please don’t drop me home
Because it’s not my home, it’s their
Home, and I’m welcome no more
And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure - the privilege is mine
Take me out tonight
Take me anywhere, I don’t care
I don’t care, I don’t care
And in the darkened underpass
I thought oh god, my chance has come at last
(but then a strange fear gripped me and I Just couldn’t ask)
Oh, there is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out

sábado, 31 de janeiro de 2009

Encher a vida

E findo o livro, uma obscura alegria me tomou, contentamento quase clandestino, o de ter mais um cúmplice, nesta loucura de encher a vida a escrever romances. Como se numa multidão indiferente alguém erguesse a voz para me saudar. Como se num deserto alguém esperasse para lhe passar testemunho. Como se de repende eu fosse menos louco.

Vergílio Ferreira
Conta-Corrente, II

Voyeur

****

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Overdose

[…]
Esqueçam os museus; esqueçam os jardins zoológicos; os teatros, concertos e cinemas: nenhuma visita é mais instrutiva ou estonteante do que uma idazinha à praça. […]

[…]
Foi você que pediu uma “overdose”? Toma lá figos do Algarve, roxos de tão doces, rechonchudos e a rebentar de bons, como os galãs de tronco nu dos anos 60 ou, caso seja homofóbico mas à mesma “retro”, a Ursula A/Undress, de biquíni apocalíptico naquele filme do James Bond. […]


Miguel Esteves Cardoso in «Em Portugal Não Se Come Mal»

Tintin no cinema

Steven Spielberg e Peter Jackson vão levar, pela primeira vez, o famoso jornalista ao cinema.
A aventura cinematográfica de Tintin vai ter o título de The adventures of Tintin: Secret of the unicorn e será o primeiro filme de uma trilogia. Terá ainda a particularidade de ser exibido em formato 3D.


Jamie Bell: Tintin.
Daniel Craig: vilão Red Rackham.
Os irmãos detectives Dupond e Dupont: Simon Pegg e Nick Frost.
Capitão Haddock: Andy Serkins.

O filme vai começar a ser gravado em Fevereiro e prevê-se que chegue à salas de cinema em 2011. Vamos aguardar.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Frágil com Quase Famosos

6ª à noite, o Frágil recebe Os Quase Famosos, um grupo de DJ’s.

De acordo com o Ricardo, um DJ quase famoso :-))), está prometida Uma espécie de caril indie com pitadas dançáveis e piscadelas nostálgicas aos Smiths e aos Cure.
Todos ao Frágil na 6ª! Até lá!!!

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

«Tu e Eu»

Tu e Eu, no Teatro Aberto, é a história de Tuninho e Garceu, dois amigos confinados a um caixote, que conhecem o mundo apenas através das imagens que lhes mostra um livro de aventuras. Mas, como diz Garceu, “um livro é um livro, o mundo é o mundo”. Cheio de coragem e determinação, desafia Tuninho, acabado de sair do seu cómodo ninho, a acompanhá-lo na descoberta de outras paragens. Os dois são “o medo e a aventura de mãos dadas” – Garceu quer enfrentar tudo que o aterroriza, Tuninho receia a própria sombra.

Texto do alemão F. K. Waechter (1937-2005), escritor, ilustrador e cartoonista. Encenação de Sofia de Portugal.

Adriano Carvalho e Pedro Carraca são os dois amigos. Uma referência especial à brilhante actuação de André Patrício que faz de “apresentador”, uma espécie de narrador que intervém na acção para ajudar a contar a história.

Parabéns André!

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

poesia de peso

Uma das melhores notícias editoriais de 2009 revela que Herberto Helder está de volta!

Após 4 anos de absoluto silêncio e recolhimento (quem consegue convencê-lo a dar uma entrevista?!?), em 2008 brindou-nos com o já esgotado A Faca Não Corta o Fogo - Súmula & Inédita (considerado pelo Ípsilon como o melhor livro do ano).

Em Janeiro de 2009 é editado Ofício Cantante - Poesia Completa. De salientar que esta pesada antologia (624 páginas) inclui alguns inéditos, bem como o referido (esgotadíssimo) livro publicado em 2008, em relação ao qual não se conhece vontade de o reeditar.

Num dos seus famosos versos, Herberto diz: «Não posso escrever mais alto». Eu digo que não é necessário.


não chamem logo as funerárias,
cortem-me as veias dos pulsos pra que me saibam bem morto,
medo? só que o sangue vibre ainda na garganta
e qualquer mão e meia me encha de terra a boca,
sei de quem se tenha erguido, de pura respiração, do fundo da madeira,
saibro, roupa, gotas de orvalho ou cera,
ornatos, espadanas, lágrimas,últimas músicas,
não é como no escuro o trigo que ressuscita,
sei sim de quem despedaçou as tábuas e ficou entre caos e nada com o
sangue alvoroçado nos braços e nas têmporas,
que se não pare nunca entre as matérias intransponíveis,
cortem-me cerce o sangue fresco,
que a terra me não coma vivo,
[excerto]

Ofício Cantante - Poesia Completa
Herberto Helder
Assírio & Alvim

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Jardim de Inverno




Jardim de Inverno, com direcção, interpretação e selecção musical de Olga Roriz, consubstanciou-se, em minha opinião, numa das peças de maior beleza dramática do panorama da dança contemporânea nacional.

Não sei porquê, mas lembrei-me agora desse jardim. Aqui ficam algumas fotos. Aqui fica o magnífico texto / sinopse, da própria Olga Roriz:

No jardim da casa do mar. Ela espera. Avança e logo pára. Ela não pára nunca. Ela embate contra os muros metálicos do jardim. Ela quer ficar só até que o tempo passe. Ela recua até ao princípio do caminho e depois recomeça. Avança na direcção da casa. Ela escuta. Ela deixa-se estar na escuta dos passos sobre o mar. Ela não olha as duas mulheres que se tocam. Ela inventa. As mulheres olham-na. Esperam. Elas vêm os jogos que ela se faz inventar para não parar nunca. Ela foge e depois pára. Ela deixa-se ver. O cheiro da chuva mistura-se com o cheiro do mar. Ela recomeça.

Olga Roriz
Março 1990

«Lisbon Revisited»

A Casa Fernando Pessoa inaugura hoje a exposição Lisboa Revisitada do ilustrador e fotógrafo Jorge Colombo que pretendende responder à pergunta Que Lisboa veria Álvaro de Campos, se a visse hoje? A resposta é dada em 52 fotografias.

A visitar!

O Público escreve: «Ficção construída por Jorge Colombo sobre a ficção de Fernando Pessoa que o próprio Álvaro de Campos foi, esta exposição, que se poderia ter intitulado Lisbon Revisited (2009), resulta de uma fusão de múltiplos olhares. O olhar actual do fotógrafo, o olhar do Jorge Colombo que viveu em Lisboa, e que captou imagens que a sua memória conserva, o olhar do Álvaro de Campos da juventude, fascinado com as multidões de transeuntes anónimos, com o movimento trepidante dos comboios, com as manchetes dos matutinos, com as luzes feéricas dos anúncios comerciais, e ainda esse olhar angustiado do Campos final, mais parecido com o do Pessoa ortónimo, um homem sem pátria alguma, sozinho numa sala deserta, cuja alma se partiu "como um vaso vazio" e "caiu excessivamente pela escada abaixo".»

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

A espreitar....

Aqui ficam algumas fotografias tiradas durante o primeiro ensaio do novo projecto Matriz.

(Ver também post de 24 de Dez e 3 de Jan)





quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

«Sem merda, nada feito»


O ultimo livro do MEC não defrauda os seus leitores. Faz jus ao já longínquo, mas excelente, “A Causa das coisas”.

Desta feita, temos um conjunto de crónicas à volta da comida portuguesa, dos portugueses que a comem, de como o fazem, do que sentem quando o fazem… E tudo isto com a qualidade de edição que a Assírio & Alvim nos tem habituado.

Aqui fica um excerto da primeira crónica, sugestivamente intitulada Sem merda , nada feito.


[...] A verdade — e não sei de uma maneira elegante de exprimir isto — é que a merda e a comida estão intrinsecamente ligadas. A merda é adubo — é comida de plantas e de bichinhos. A razão da existência de amêndoas-doces, por exemplo, está mais do que provada.

Há milhares de anos só havia amêndoas amargas. Os bichos provavam e cuspiam. Mas, quando aparecia uma doce, comiam. E, tal como comiam, acabavam por cagar. A semente acabava assim por sair para o mundo e ser acomodada num montinho simpático de merda que a nutria. Resultado: cada vez as amêndoas mais doces singravam. Assim aconteceu com muitas plantas. Por uma selecção natural, as saborosas nasceram num infantário de merda, enquanto as amargas foram cuspidas para um desértico celibato.

Negar ou desfazer esta ligação essencial entre o que se come e o que se caga é pôr em causa a própria natureza humana. Deixar de comer muita fruta só por que produz imenso gás (coisa que os fascistas sanitários nunca mencionam) é tentar fugir, estupidamente, ao ciclo da vida. O elo entre a boca e o cu não só merece atenção — merece respeito.

O que me traz aos ovos. Hoje em dia é proibido mencionar que as galinhas têm cu — mas têm. É por onde saem os ovos, desculpem lá. Entre gastrónomos avançados, os ovos com tracinhos de merda na casca são avidamente comprados por cinco vezes mais do que o preço habitual dos ovos lavados, carimbados, pasteurizados. As galinhas comem merda; como comem os porcos; como comem as santolas.

Claro que faz nojo — mas é um nojo moderno, que se deve resistir. Os melhores limões que já provei, criados pela mãe da minha cunhada Xana, sogra do meu irmão Paulo, são criados exclusivamente com caganitas de cão. Há coisa mais limpinha do que um limão? Não, não há. Quem não compreender a relação íntima entre o cagalhão e o limão não percebe nada. [...]


Em Portugal Não se Come Mal
Miguel Esteves Cardoso
Assírio & Alvim

Horas indecisas

«Ah, as horas indecisas em que a minha vida parece de um outro...
As horas do crepúsculo no terraço dos cafés cosmopolitas!
Na hora de olhos húmidos em que se acendem as luzes
E o cansaço sabe vagamente a uma febre passada.»

Álvaro de Campos

sábado, 10 de janeiro de 2009

Tintim

Tintim, um dos meus ídolos de infância, completa hoje 80 anos. Foi criado por Hergé.

A 10 de Janeiro de 1928 apareceu pela primeira vez nas páginas do jornal belga Le Petit Vingtième, ainda em preto e branco. Ao longo de sua ilustre carreira, Tintim foi acusado de muita coisa: racista, colonialista, nazista, alienado…

Realmente, Tintim é um mistério: um repórter que não trabalha, e que mora num castelo com um marinheiro de meia-idade, um professor e um cachorrinho, e cuja única amiga mulher é uma cantora de ópera.

Para mim, Tintim é apenas um menino de 7 anos que não cresce.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Arte

Iris Murdoch por Tom Phillips (óleo), 1984-6
Acabei de ler O Príncipe Negro, de Iris Murdoch (acerca do qual já inseri vários posts).

À semelhança do conceito de cultura, também a arte é difícil de definir de forma sucinta e satisfatória. Iris Murdoch arriscou e optou por finalizar o livro acima referido com uma definição de arte. Brilhante, a meu ver.

Aqui ficam as últimas frases do livro, para vossa apreciação:

[…] A arte não é confortável nem falsificável. A arte conta a única verdade que em definitivo interessa. É a luz através da qual os seres humanos podem ser corrigidos. E para além da arte, permitam que vos diga, não existe nada.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Save the date

No post de 24 de Dezembro, falo no novo trabalho da Teresa Salgueiro, a ser editado no início de 2009, Matriz.

Agora, as últimas notícias avançam que a apresentação do novo trabalho, vai ocorrer a 13 de Março no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Receita fácil

Another day, just believe,
Another day, just breathe,
Another day, just believe,
Another day. Just breathe.

Graffiti


Nas paredes de um "cafesinho" na Lapa...
Pedi mais um café por favor!
Fico mais um pouco...

Coisas

[…]
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
[…]

Álvaro de Campos, Tabacaria (excerto)

So many stars

So Many Stars
(Sergio Mendes, Alan Bergman, Marilyn Bergman)

The dark is filled with dreams
So many dreams which one is mine
One must be right for me
Which dream of all the dreams
When there's a dream for every star
And there are oh so many stars
So many stars
The wind is filled with songs
So many songs which one is mine
One must be right for me
Which song of all the songs
When there's a song for every star
And there are oh so many stars, so many stars
Along the countless days, the endless nights
That I have searched so many eyes
So many hearts, so many smiles
Which one to choose, which way to go, how can I tell
How will I know, out of, oh
So many stars, so many stars
[...]

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Casamento e Solidão

«[…] O casamento é uma instituição curiosa, […]. Não consigo compreender lá muito bem como pode funcionar. Normalmente as pessoas que se vangloriam de um casamento feliz estão, parece-me, a enganar-se a si próprias, se é que não a mentir deliberadamente. A alma humana não foi concebida para uma proximidade constante, e esta vizinhança forçada redunda amiúde numa solidão espantosa, que as regras do jogo impedem que seja mitigada. Nada se compara à inútil solidão de duas pessoas enjauladas no mesmo espaço. Os que estão fora da jaula podem, segundo o seu gosto, satisfazer a sua necessidade de companhia através de incursões mais ou menos organizadas ao território dos outros seres humanos. Mas uma unidade de dois dificilmente consegue comunicar com os outros; e já se pode dar por feliz, à medida que os anos passam, se conseguir comunicar dentro de si mesma. […]»

Iris Murdoch
O Príncipe Negro (excerto)