sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

quarto com vista...

:-)

Aliás, muitos livros não têm outra utilidade que não esta...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

domingo, 24 de janeiro de 2010

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"Sentir é estar distraído."

Alberto Caeiro

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"Há três tipos de pessoas - as que criam cultura, as que consomem cultura e as que não se importam minimamente com o assunto.
Mova-se entre os dois primeiros grupos."

Karim Rashid

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

!

Há dias assim
em que acordamos e percebemos tudo
como se tudo nos estivesse imensamente próximo
como se cada dia nascesse e morresse num abraço
como se a vida coubesse num poema


José Rui Teixeira


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a vida
tatuou-me nos olhos
janelas
em que me transcrevo e apago

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

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Esculturas com livros. Imagens de uma exposição do artista plástico checo Matej Kren, exibida no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian.
Mais informações em:

www.matejkren.cz/cs/book-cell/



quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Vintage

Gostam de Italo Calvino? Eu gosto, e gosto muito destas capas vintage...









Porque não?

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

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O «Homem-livro» é simultaneamente uma estante, uma escultura e um elemento decorativo. É uma criação da Any Amount of Books, em Londres. Apesar de não achar extraordinário, aqui ficam algumas fotos...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

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Estas pinturas do artista plástico iraniano Iman Maleki são realmente fantásticas, de uma expressividade única. Visite o seu site: http://www.imanmaleki.com/

domingo, 3 de janeiro de 2010

2010

A partir de livros danificados, Mike Stilkey criou três interessantes peças. Ora vejam:



quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Feliz Ano Novo!!!


Poderia ser um quadro de Hopper...

Inge Morath, Mapes Hotel, Reno, 1960
.
Esta foto expõe Miller e Marilyn à beira da ruptura: marido e mulher juntos num quarto de hotel, mas onde é visível a distância entre os dois.

A mim evoca-me o universo do meu tão admirado Edward Hopper…

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Infinitamente..........

"Eu pergunto-me se é possível entrevistar um escritor. Acho que não é porque ele é muita gente. E é muito difícil apanhar essa multidão toda."

António Lobo Antunes [RTP2, Por outro lado, 04.04.2006]

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

"Desiderata, a junção do bem": banda sonora de um filme que não existe

Está à venda o primeiro cd a solo de Francisco Ribeiro (antigo violoncelista dos Madredeus), intitulado “Desiderata, a junção do bem”. Consiste em 14 temas de nova música vocal, orquestral e de câmara. Utiliza sonoridades modais portuguesas, canto cigano/moçárabe, fado de Coimbra, e tem influência clássica, contemporânea, minimalista, new age e da film music. É música plena de imagens e que funciona como a banda sonora de um filme que não existe, mas que se existisse se intitularia ‘A Junção do Bem’.
Os temas/canções evocam algumas emoções e sentimentos em torno do amor: a memória/saudade, a obsessão, a rejeição, a perda, a procura, o uso de corpos-desejos, a entrega, a festa, a sacralidade, a paixão, o perdão. O ouvinte é convidado numa viagem e poderá identificar-se com um tema característico do classicismo – o do herói que desce ao sub-mundo para regressar vencedor no final. Existe a linha condutora de uma viagem das trevas para a luz, sendo o amor o veículo/solução e o tema principal.
Convidou José Peixoto para a guitarra acústica e a Orquestra Nacional do Porto para o resto dos instrumentos, o disco vive muito das vozes de Tanya Tagaq (que gravou com Bjork, por exemplo), Filipa Pais, Natália Casanova (magnífica voz dos extintos e saudosos Diva), José Perdigão e do próprio Francisco Ribeiro.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Sundays...

Homer Winslow [The New Novel] 1877

Assim, sim!!


terça-feira, 22 de dezembro de 2009

porque é natal...



apesar de neste ano não sentir o chamado "espírito de natal", aqui ficam umas bonitas "árvores"...


quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

[...]

Valha-nos isso!!!

sábado, 12 de dezembro de 2009

"(...) as palavras estão gastas.

Adeus."

Giselle

O bailado clássico surge muitas vezes ligado a espectáculos de tradição natalícia. "Giselle", que a Companhia Nacional de Bailado (CNB) estreia hoje, pelas 21 horas, no Teatro Camões, em Lisboa, não foge à regra e é um dos muitos eventos.

"Giselle" enfrenta, assim, a concorrência de outras obras célebres, sendo que a coreografia desta peça, que marca o apogeu da nova estética romântica que agitava o mundo intelectual e artístico de finais do século XIX, é um verdadeiro teste à capacidade técnica e interpretativa dos bailarinos.

Ana Lacerda, que dá, uma vez mais, alma à protagonista, diz que, em cada remontagem, há sempre coisas a descobrir. "Já é a terceira vez que danço 'Giselle' e de cada vez há sempre coisas novas a descobrir, novos desafios que nos são colocados enquanto intérpretes. É engraçado porque cada remontagem acaba por funcionar como se fosse a primeira", explica a bailarina principal da CNB.

Para Ana Lacerda, "não importa há quanto tempo já estamos familiarizados com uma coreografia. Há sempre coisas a aprender".

A coreografia que a CNB leva ao palco do Teatro Camões, onde tem agendados mais sete espectáculos (dias amanhã, domingo e dias 17, 18, 20, 22 e 23 deste mês), tem coreografia do cubano Georges Garcia, segundo o que, em 1841, foi apresentado por Jean Corelli, na Ópera de Paris, onde este bailado estreou.

Ana Lacerda fala da música maravilhosa composta por Adolph Adam (que será interpretada, ao vivo, pela Oquestra Sinfónica Portuguesa, sob direcção de Geoffrey Styles) e da história romântica que Giselle conta. Não obstante já ter dançado várias vezes esta coreografia, a bailarina lembra que este é um "ballet" que sublinha o enorme êxito que a peça conheceu. "Basta ver como ela está, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, integrada no reportório de grande companhias internacionais".

Quando o pano sobe, o cenário remete os espectadores para uma pequena aldeia do Reno, no tempo das vindimas, frente à casa onde mora Giselle. É neste espaço que surge o Duque de Silésia, que se disfarça de aldeão adoptando o nome de Loys e que, deste modo, corteja a jovem, não obstante estar noivo da altiva Batilde. O seu guarda de caça, Hilarion, também apaixonado por Giselle, acaba por descobrir a trama e denuncia o logro.

A história do bailado responde ao gosto da época pelo fantástico, pelo irreal, pelas emoções fortes. Um desafio para quem, em palco, ao longo de mais de duas horas, dá vida a todas estas personagens, dançando em pontas.

A personagem de "Giselle" está entre as preferidas de Ana Lacerda, a par de "Julieta" ou de "A Dama das Camélias". "Ser bailarina é uma profissão tão emocional, tão especial e tão rara que é uma pena que não se dê o devido valor e que muitas vezes não se respeite o nosso trabalho", lamenta .

Ana Lacerda iniciou-se aos cinco anos, tendo passado pela extinta escola de bailado da Companhia Nacional de Bailado, então sedeada no Teatro Nacional de São Carlos. Não obstante ter tido hipótese de fazer carreira no estrangeiro, optou por continuar a dançar em Portugal.

Fonte: JN

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

domingo, 6 de dezembro de 2009

"Whislist"

:-)

Livros, livros, livros

Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro

Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso (E, sem dúvida, sobretudo o verso)
o que pode lançar mundos no mundo. Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas (Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou o que é muito pior por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:

Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Solidariedade nas Livrarias Almedina

Quer oferecer um livro?

Ofereça-o à Acreditar - Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro. Em todas as lojas Almedina encontra um espaço onde pode depositar os livros que trouxer ou adquirir.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Névoa


Em 1914, Mário de Sá-Carneiro escreveu:
.
"Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro."
.
Em 2009, o Artur Lourenço consegue transmitir o mesmo através desta magnífica foto. Pode ficar-se a olhar e quase ver o nevoeiro a passar. Gostei. Muito

Fumar mata


Referendos & afins

A última crónica do gato fedorento mais famoso é excepcional. Ora leiam:
"Confesso que não sei se as pessoas nascem com essa característica ou se optam por adoptar o comportamento desviante que a Bíblia, aliás, condena - mas, na minha opinião, os canhotos não deveriam poder casar. Nem adoptar crianças. Um casal de pessoas, digamos, normais, acaricia a cabeça dos filhos como deve ser, da esquerda para a direita. Os canhotos acariciam da direita para a esquerda, o que pode ter efeitos perversos na estrutura emocional das crianças. Na verdade, sou contra a adopção por casais heterossexuais em geral, sejam ou não canhotos. Atenção: não tenho nada contra os heterossexuais. Tenho muitos amigos heterossexuais e eu próprio sou um. Mas não concordo que possam adoptar crianças. Em primeiro lugar, porque é contranatura. Quando olhamos para a natureza, não vemos casais de pardais ou de coelhos a adoptarem crias de outros. Pelo contrário, esforçam-se por colocar as suas crias fora do ninho ou da toca o mais rapidamente possível. Ou usam as suas próprias crias para produzir novas crias. Mas não adoptam. Provavelmente, porque sabem que é contranatura. Por outro lado, a adopção por casais heterossexuais pode condicionar a sexualidade das crianças. Todos os homossexuais que conheço são filhos de casais heterossexuais. A influência de heterossexuais tem, por isso, aspectos nefastos que merecem estudo cuidadoso. Por fim, há a questão do estigma social. Suponhamos que uma criança adoptada por um casal heterossexual é convidada para ir a casa de um colega adoptado por um casal de homens. Como é que o miúdo que foi adoptado por heterossexuais se vai sentir quando perceber que a casa do colega está muito mais bem decorada do que a dele?

Quanto ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, mais do que ser a favor de um referendo, sou a favor de vários. Creio que o casamento entre pessoas do mesmo sexo deve ser referendado caso a caso. O Fernando e o Mário querem casar? Pois promova-se uma grande discussão nacional sobre o assunto. A RTP que produza um Prós e Contras com cidadãos de vários quadrantes que se posicionem contra e a favor da união do Fernando e do Mário. Organizem-se debates entre o Mário e os antigos namorados do Fernando, para que o povo português possa ter a certeza de que o Fernando está a fazer a escolha certa. E depois, então sim, que Portugal vá às urnas decidir democraticamente se concede ao Mário a mão do Fernando em casamento. E assim para todos os matrimónios. Se o objectivo é metermo-nos na vida dos outros, façamo-lo com o brio que essa nobre tarefa merece.

Defendo, portanto, uma abordagem especialmente cautelosa desta questão. Sou muito sensível ao argumento segundo o qual, se permitirmos o casamento entre pessoas do mesmo sexo, teremos de legalizar também as uniões dos polígamos. E sou sensível porque, como é evidente, não posso negar que me vou apercebendo da grande movimentação social de reivindicação do direito dos polígamos ao casamento. Parece que já temos entre nós vários muçulmanos, grandes apreciadores da poligamia. E eu não tenho homossexuais na família, nem entre os meus amigos, mas polígamos, muçulmanos ou não, conheço umas boas dezenas. Se toda esta massa poligâmica desata a querer casar, receio que os notários fiquem com as falangetas em carne viva, de tanto redigirem contratos de união civil. Mas, felizmente, confio que os polígamos sejam, também eles, sensíveis à mais elementar lógica: a poligamia é uma relação entre uma pessoa e várias outras de sexo diferente. A reivindicarem a legalização das suas uniões, fá-lo-iam a propósito do casamento entre pessoas de sexo diferente, com o qual têm mais afinidades. A menos que se trate de poligamia entre pessoas do mesmo sexo. Mas, segundo o Presidente do Irão, parece que entre os muçulmanos não há disso."
Ricardo Araújo Pereira, Visão

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

"A minha vida é monótona"; "O que o Dr. Freud diz tanto me faz"; "5% de leitores é quanto basta"

O escritor japonês entrevistado pela sua tradutora portuguesa (entrevista publicada no jornal i). Entrevista interessante, onde fala uma vez mais no TÃO aguardado romance 1Q84 ainda não disponível em português.

Haruki Murakami gosta de escrever e gosta de correr - o seu novo livro, "Auto-retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo", publicado este mês em Portugal, é prova disso mesmo. Apesar de não cultivar o isolamento de outros autores, também gosta de se fechar em casa a ler livros e a ver episódios da série "Perdidos" (gravados precisamente na ilha de Kauai onde escolheu viver partes do ano). O que não gosta é de responder a perguntas: "O autor deve ser a última pessoa a falar sobre a sua obra", justifica. Arrancar-lhe uma entrevista é, portanto, uma raridade: "Haruki está concentrado a escrever o novo romance e não tem aceitado dar entrevistas. Mas como este é um pedido especial, ele quis colaborar", explicou por email Yuki Katsura, a assistente, avisando ainda que Murakami não teria tempo para respostas longas. Em relação ao novo romance, "1Q84", que acabou de ser publicado no Japão, Murakami disse à sua tradutora (aqui na pele de entrevistadora) que quer vê-lo em português: "E espero que seja aceite calorosamente (com fervor, de preferência). Espero ainda visitar o vosso país numa próxima ocasião.
"João Céu e Silva escreveu no "Diário de Notícias" acerca deste novo livro: "Quando se chega ao fim, fica a curiosa sensação de que entrámos num mundo inesperado do japonês e que um dia destes ele brindará os seus leitores com a verdadeira autobiografia completa." Os leitores podem contar com isso?
Não creio que algum dia vá escrever a minha autobiografia, uma vez que a minha vida (até à data) é bastante monótona. Levanto-me de manhã cedo e trabalho cinco ou seis horas, depois corro (ou nado) durante uma hora, e vou para a cama bastante cedo. Estou casado com a mesma mulher há 37 anos. Faço colecção de velhos LP de jazz. Não vejo que razão possa ter para descrever esta minha vida, sem nada de extraordinário, e correr o risco de provocar bocejos nas outras pessoas. Mas um dia destes terei qualquer coisa a dizer acerca da escrita propriamente dita.
Considerando a forma - um livro de memórias -, registaram-se mudanças significativas no processo criativo, ou foi apenas trabalhar no duro e suar como de costume?
A pergunta refere-se à forma do livro? Ou ao exercício propriamente dito? O que quis dizer neste livro foi o seguinte: para se produzir uma obra consistente, poderosa, tem de se ser fisicamente forte e estar em boa forma física. É essa a minha teoria. Quando se é muito novo, ou quando se é um génio, não é preciso fazer exercício. Um escritor limita-se a escrever. Até aí, tudo bem. Não perde o seu tempo com mais nada. Mas quando já não se é tão jovem nem tão genial quanto isso, o corpo torna-se um companheiro importante. Ajuda, tanto física como mentalmente, sobretudo a manter a cabeça desanuviada e a mente activa.
Como define a sua relação com os críticos, que por vezes tendem a associar à sua obra rótulos como pós-moderno, surrealista, ecléctico, pop?
Sou um romancista. Escrever livros é a minha profissão. E acredito que o autor deve ser a última pessoa a falar sobre a sua obra. Por isso, deixo que sejam os outros a tecer considerações acerca do meu trabalho. Algumas pessoas dizem coisas razoáveis, outras não; o problema é delas e não meu. Pela parte que me toca, continuo a escrever, e isso é o mais importante. Espero escrever o que outros não são capazes de escrever, ou não se atrevem a escrever. Será provavelmente a isto que chamam "originalidade". E, por vezes, a originalidade tem o condão de irritar certas pessoas. Não é minha intenção provocar essa irritação, escusado será dizer, mas, tal como já disse antes, o problema é definitivamente deles, não meu.
O terceiro volume de "1Q84" será publicado no Japão em Maio de 2010. Já disse que era "o maior e o mais ambicioso". Assassínio, história, cultos religiosos, laços familiares, amor. Apesar do segredo que envolve o romance, pode revelar-nos mais?
Gostava de lhe chamar "um romance completo" ou "um romance total", uma vez que contém quase tudo dentro dele. Por outras palavras, foi concebido como um microcosmo. Não tem aquilo a que se chama um "tema". É apenas um romance, uma história e, se resultar bem junto dos leitores, significa que eles se irão ver perdidos na densa floresta engendrada pela própria história e por lá vão andar, por sua conta e risco. É isso que pretendo. Que vocês, leitores, andem por ali sozinhos e perdidos, mas que no fim acabem por ser salvos, de certa maneira. Mais ou menos...
"1Q84" é um calhamaço. Philip Roth, eterno candidato ao Nobel, em entrevista recente ao "Guardian", afirmou que cada vez parece existir menos capacidade de concentração para ler um romance devido aos computadores e à televisão. Num cenário destes, o que continua a inspirar Haruki Murakami a escrever romances?
Se o livro for suficientemente bom e poderoso, e suficientemente apelativo, as pessoas vão lê-lo e irão gostar do que lêem. Estou de acordo com Mr. Roth em muito do que ele diz, mas acredito no poder dos livros, no poder das histórias dos últimos três mil anos. É preciso ter uma certa confiança nessa matéria. Computadores? Existem há quê? Pouco mais de duas décadas, não é verdade? Se cinco por cento da população ler livros com regularidade, gostar verdadeiramente de ler, só isso já será fantástico. Nós (escritores) podemos continuar a viver porque sabemos que eles estão lá. Deixem lá os restantes noventa e cinco por cento das pessoas ver a televisão que quiserem ou entreterem-se com jogos de computador até à exaustão. Não importa. Cinco por cento de leitores é quanto basta.
Que música é que ouve quando não está a escrever, altura em que só tem por hábito prestar atenção ao som produzido pelo teclado?
Música clássica de manhã, jazz da parte da tarde e à noite. Enquanto conduzo, quase sempre rock. É uma grande ajuda. Devo muitas coisas à música. Refiro-me à boa música, claro. Mas quando estou realmente concentrado na escrita, não oiço nada.
Este ano visitou Espanha a fim de receber o Prémio San Clemente. Passou um dia na companhia de jovens entre os 16 e os 18 anos que parecem ávidos de o ouvir e ler. Tem consciência disso?
Fico verdadeiramente satisfeito por saber que os jovens na Europa (ou em qualquer outra parte do mundo) adoram ler os meus livros. Encaro isso como uma espécie de milagre. A verdade é que confesso a minha ignorância quanto às razões que os levam a ler-me com tanta avidez, uma vez que não sei quase nada acerca da juventude nos dias que correm, mas parto do princípio de que partilhamos histórias. Histórias são metáforas. E nós precisamos de boas metáforas para sobreviver neste mundo duro e cruel. As teorias não funcionam, os variados "ismos" (seja o comunismo ou o mercado livre, market-ism, e outros que tais) não surtem efeito na prática, as Nações Unidas não funcionam, os computadores estragam-se, os pais são estúpidos, os professores são idiotas, a escola não presta (tem dias), mas a metáfora cumpre a sua função. Tanto no que toca aos adultos como aos jovens.
Como tradutora, perguntam-me ainda hoje muitas vezes como traduzi o capítulo 16 de "Kafka à Beira-Mar", com todo aquele sangue à mistura. O Haruki disse em tempos: "Quando estou a escrever, não penso. Não sei se [as personagens] são boas ou más." Continua a pensar o mesmo?
Quando me encontro a escrever histórias, viajo até lugares sombrios, para não dizer até aos lugares mais obscuros. Em sítios desses, não é fácil, para não dizer que por vezes se torna impossível, dizer o que é bom e o que é mau. O que é certo e o que é errado. No entanto, quando nos apanhamos de volta à superfície, que é como quem diz, a este mundo, temos de decidir se queremos ter uma vida como deve ser. Como tal, somos obrigados a levar uma vida dupla - uma vida profunda e uma vida superficial. Pode chamar-se a isso uma existência dividida. E a experiência ameaça revelar-se bastante perigosa. A nossa personalidade pode ficar dividida para sempre. Quero com isto dizer que uma pessoa tem de ser suficientemente forte. Dito de outro modo, é preciso correr.
Sempre me impressionou o seu entendimento do mundo feminino. Freud diz que um homem só é capaz de amar na medida em que "possui uma vida emocional feminina". Como é que se analisa diante do espelho?
Costumava sentir-me pouco à vontade quando escrevia personagens femininas, comparado com o que sentia quando me punha a escrever personagens masculinas. Contudo, recentemente, dei por mim a gostar cada vez mais de escrever sobre mulheres. De certa maneira, é como se me sentisse capaz de me pôr na pele delas, por assim dizer. E isso é muito importante para mim enquanto escritor. O que o Dr. Freud diz tanto me faz.
Afecta-o de alguma maneira ver o seu nome referido ano sim, ano não, como potencial candidato ao Prémio Nobel da Literatura?
Os bons leitores são os meus verdadeiros prémios e as medalhas dignas desse nome. As outras coisas... não passam disso mesmo. Ou se percebe isto ou não se percebe. Não tem importância.